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RECONTANDO HISTÓRIAS - Nortemires Morais dos Santos

 

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RECONTANDO HISTÓRIAS
Nortemires Morais dos Santos

Muito antes de ocupar uma sala de aula na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Pará, Nortemires Morais dos Santos já transformava vidas pelo ensino. Alfabetizadora, professora primária, diretora de escola, advogada, servidora pública e, mais tarde, professora universitária, ela fez da educação o fio condutor de uma trajetória construída com dedicação, liderança e compromisso com a justiça.
 
Nascida em Belém, em 5 de fevereiro de 1929, filha de José Vicente de Morais Carapajó e Raimunda Miranda de Morais Carapajó, Nortemires percorreu um caminho pouco comum para uma mulher negra em meados do século XX. Formou-se professora, ingressou no serviço público ainda jovem e, em 1967, decidiu enfrentar um novo desafio: cursar a Faculdade de Direito da UFPA.
 
A turma que concluiu a graduação em 1971 viveu um dos períodos mais duros da ditadura civil-militar brasileira. Entre colegas mais jovens, Nortemires já chegava à universidade trazendo a experiência de quem conciliava trabalho, família e estudo. Essa maturidade fez dela uma liderança natural. Os relatos de antigos colegas lembram uma mulher estudiosa, firme em suas convicções e respeitada por toda a turma. Quando as discussões se tornavam acaloradas e sua voz não conseguia ser ouvida, ela subia em uma cadeira. Bastava isso para que o silêncio se instalasse e todos passassem a escutá-la, destaca a Professor Marlene Freitas.
 
Sua atuação profissional também rompeu barreiras. Depois de exercer o magistério e atuar como servidora pública, tornou-se advogada do Banco do Estado do Pará, onde ocupou cargos de chefia no Departamento Jurídico. Em 1973, retornou à Faculdade de Direito, agora como professora de Direito Penal. Durante mais de duas décadas formou gerações de juristas, participou da criação do Departamento de Direito Penal e Processual, presidiu bancas de concursos públicos e assumiu a chefia do departamento, tornando-se uma das principais referências da área na Amazônia.
 
Mas sua história não se resume aos títulos que ocupou. Nortemires também acreditava que o Direito precisava dialogar com as transformações da sociedade. Em meio ao processo de redemocratização do país, participou de palestras sobre os direitos das mulheres durante os debates da Assembleia Constituinte e esteve presente em mobilizações que reivindicavam justiça para mulheres vítimas de violência, demonstrando que o compromisso com a cidadania ultrapassava os limites da sala de aula.
 
Quem conviveu com ela, entretanto, recorda não apenas a professora rigorosa ou a jurista respeitada. Lembra da colega que reunia os amigos para estudar, que organizava as confraternizações da turma, que mantinha o bom humor mesmo diante das dificuldades e que fazia questão de acolher todos ao seu redor. Era uma liderança construída menos pela autoridade e mais pela capacidade de inspirar confiança, solidariedade e respeito.
 
Ao revisitar sua trajetória, percebemos que a história da Faculdade de Direito da UFPA também foi construída por mulheres como Nortemires Morais dos Santos: pioneiras que desafiaram desigualdades de gênero e de raça, ocuparam espaços de poder, defenderam a educação pública e contribuíram, silenciosamente, para formar milhares de profissionais do Direito. Recontar sua história é reconhecer que o legado de uma instituição centenária também se sustenta na dedicação daqueles que fizeram do conhecimento um instrumento de transformação social.
 
Luanna Tomaz
Professora da Faculdade de Direito. Diretora Adjunta do Instituto de Ciências Jurídicas
 
Ariel Soares
Discente da Faculdade de Direito, Bacharela em História (UFPA) e Mestra  em História Social da Amazônia (PPHIST/UFPA)

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